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31/08/2011

malga

A minha avó materna, Maria de 99 anos ainda hoje pega no copo de beber com o polegar por fora e o dedo indicador por dentro do copo como estivesse a beber de uma malga.

26/06/2011

tiny red spider

Dois dias e uma manhã passadas com os meus pais e a minha avó que agora com os seus anos avançados refer à sua primeira neta como "a minha prenda", ou és a minha prenda/inha" todas as vezes em que lhe ofereço um abraço ou beijinho. Será que ela sabe que a maior prenda da minha vida é ela?
Não saí do quintal dos meus pais. Só quis estar perto deles a observar o mundano e os detalhes. Sentir a presença deles, dali, por debaixo da laranjeira. Tudo isto foi uma prenda de dois dias e uma manhã.

13/04/2011

Mosca, interrompeste o silêncio da manhã. Fizeste me lembrar de quando era menina deitada nos campos da minha avó na aldeia dela. Era o som de um insecto voador como tu que quebrava o lindo silêncio. Ó mosca, lembro-me do calor que fazia com que o cheiros do verão pairassem por tempos prolongados no ar. Eu ali deitada sobre a manta de ervas secas sentia-as a rasparem a pele. Não precisava de uma «mantinha». Olha mosca, isto é a suavidade de ser criança e sentir tudo mas só perceber o que é que eu sentia ao ser grande. Tudo porque voavas perto de mim esta manhã...

07/10/2010

O Braguinha e a trisavó

base para chavena "cromo"

by mary

"O Braguinha" era o alcunha do meu trisavô materno. Sabemos que ele era professor e que vinha da cidade de Braga. Foi parar a Paredes do Vale, uma pequena aldeia paradisíaca, isolada mas com terra fertíl e agúa de nascente em abundância. Mas acho que foi o amor que fez com que o meu trisavô ficasse nesta pequena terra. Casou com uma senhora da Bemposta, Vale, a freguesia de Paredes. Ele ficou e convenceu a suas duas irmãs também para se mudarem para a aldeia. Elas casaram-se e viveram a sua vida em Paredes.

O Braguinha apaixonou-se e casou-se com uma tecedeira e costureira. Soube isto num dia esplendido deste verão. Foi a minha mãe que contou enquanto eu acolchoava a minha manta. Sem mais nem menos, a minha mãe começa a contar como a maquina de costura que o "Zé Cabaninhas", (o primo da minha mãe, era filho da Ana, a tia da minha mãe, e irmã da minha avô Maria, e filha da Rosa Cerqueira) lhe deu já há uns oito ou nove anos atrás e que ela guardou, era da bisavó dela. Eu fiquei surpreendida quando comecei a perceber que para ter uma maquina assim numa aldeia pequena queria dizer que para a minha trisavô isto era a sua profissão. A maquina é uma Singer. Dela só resta a carcaça de ferro forjado toda ferrugenta, mas que quando há mais de 100 anos a minha trisavõ a usava no seu trabalho devia ser mais ou menos assim. Tem todas as peças e a base da mesa também. Também guardado temos algumas das ferramentas que ela usava para preparar o linho. Suspeito que esta manta seja uma criação dela.

27/08/2010

fresca

Os meus pais passaram uns dias em Sintra comigo e o Luís. As obras da Casa Azul ainda perduram e contamos com pelo menos mais um ano para estar tudo acabado. Tem sido penoso, especialmente no meio da abertura e durante a habituação ao novo ritmo do Saudade. Mas sobrevivemos até agora com a ajuda de muita gente e boa vontade. Os meus pais trouxeram 2 X 5 litros de agua lá da aldeia. Antes quando iamos à aldeia eu e o Luís carregavamos garrafões para trazer agua connosco. É tão boa. Sabe bem e é fresca. Limpa e dá vigor. Agua, a minha bebida preferida. Agua da aldeia da minha avó que corre perto da casa dela. Bebo a agua e mato o bicho. Mato a saudade.

15/08/2010

o meu paraíso

Esta semana ardeu a aldeia da minha avó Maria e a aldeia do meu avô Antonio, nesta a povoação foi evacuada. As aldeias ficam no oposto lados de uma serra do parque da Peneda que ainda hoje está arder. A minha mãe telefonou me na Quarta feira para o café há hora do almoço em panico porque só via "serras de fogo preto" e a gritar que o teu pai e tio foram lá baixo ver a casa da tua avó. Mais tarde telefonei e ela histerica disse que o fogo tinha chegado a aldeia de cima e que havia fogo em frente, por trás e nos lados da casa dela. Que não havia bombeiros porque estavam todos no fogo de Soajo. Restava os homens da GNR para os ajudar. Ela e os meus tios mais os vizinhos combatiam o fogo com sacholas, vassouras e aguas dos tanques das casas. Á noite telefonei e ela contou que estavam exaustos mas todos bem, negros do fumo. De manhã telefonei, estavam exaustos os olhos enchados de "engoliram" tanto fumo e a aldeia em todo lado para onde o olho via estava preta, preta, e cheirava a fumo. Havia ainda nuvens de fumo no lindo Vale em frente a casa deles. Ela disse que em sessenta e tal anos da vida dela nunca tinha visto fogo como o que viu nestas últimas duas semanas no alto Minho. Há mais de cinco anos atrás o Luís mais o meu pai e cunhado caminharam até ao Gião, o ponto mais alto do Mezio localizado a porta do Parque da Peneda-Gerês. O Gião fica no topo da serra que separa a aldeia da minha avó da do meu falecido avô. Estava lá o homem que vigiava os montes do parque do lado da Peneda. Tinha um galo morto como isco pendurado cá fora para atrair a raposa. Em 2006 houve um grande fogo no Mezio e eles não perderam tempo (quem são eles, não sei) em mandar grandes camiões para romper e rasgar caminhos para extrair as arvores queimadas. Centenas de arvores. Mas desde então ninguem fala da reflorestação do Mezio. Ninguem fala de prevenção, só lamentam o facto de que o "big government" faz o insuficiente. É um grande caos antes, durante e depois dos fogos. Apetece escrever palavrões. Alguem (dos grande medias) tem de ir a estes lideres destes municipios e perguntarem as perguntas difíceis. Há algo que não bate certo.....Estou revoltada e muito triste.

15/07/2010

sacudir o mofo

Estou com os meus pais e avo em Paredes. O tempo esta fresco, refrescante. A casa cheira a mofo de estar fechada ha um ano. O silencio e como orvalho para a alma. Vi um falcao numa caminhada mas juro que vi os brancos dos olhos dele, tao perto que passou por mim. Ha uma familia de quatro corvos que fazem sons que nunca tinha ouvido mas que existem desde sempre. Ha vacas, ovelhas, chibinhas (cabras), cavalos brancos e castanhos. Ha gente da terra e outras que vem de fora. Ha vizinhos tristemente doentes e outros que ja passaram. Ha as serras e senso de vastidao e liberdade que quebra a culpa que se sente estar no paraiso. Depois tudo e possivel.

26/06/2010

caldo

Ontem comi um caldo num restaurante perto de mim pertencendo a gente do Norte. Um caldo de hortaliça tendo ele sido engrossado com farinha. Fazia-me lembrar o caldo da minha avó Maria. Era aquele caldo que ficava depois de ela fazer o cozido á portuguesa tipicamente aos Domingos lá nos Estados Unidos. Era lá na casa de Tremont Street, nº 68 no 3º andar. Nós vivíamos no 1º. O caldo ficava muitos dias na mesma panela no frigorífico para quem depois quisesse subir e comer mais. Depois os meus avós quando mais velhinhos e para completar o círculo da vida, pelo menos para o meu querido avô, decidiram mudar-se para Paredes do Vale, a aldeia da minha avó. Quando os visitava ainda comiam o caldo à noite. Lembro me do meu avô às vezes deitar vinho tinto na tigela porque o caldo já tinha uns bons dias e começava a azedar. E sempre alguns bocados de pão de "ontem".

27/04/2010

uma das vistas da casa do meu pai em Paredes do Vale

Não me lembro do nome da minha tia, a irmã do meu pai. Estava a falar com o Luís sobre ela mas não me lembrava do nome. Tenho tentado nos últimos dias imaginar falar com ela a ver se me lembro mas não vem á memória. Lembro me que ela era uma mulher bonita, voluptuosa, e alegre. Era uma senhora da cidade com um coiffeur grande e á Lisboa, assim como os ocúlos de moda também de tamanho XL. Em retrospectiva, ela nunca perdeu a essência dela de menina do campo com a sua à vontade na sua maneira de ser.

No fim de cada férias do verão na aldeia no Minho e sempre antes do regresso para os Estados Unidos visitávamos a minha tia na pequena mercearia dela numa rua junto ao Palácio da Ajuda. A minha tia morreu há muitos anos e morreu muito nova. Depois, as visitas à Ajuda lentamente pararam de ser. Lembro-me bem dos nomes dos filhos, meus primos, o Rui e a Paula, mas não o dela.

O meu pai conta que a minha tia foi para Lisboa muito nova para trabalhar como empregada domestica. Quando ela regressava a Sampriz, Ponte da Barca, trazia sempre uma escova de dentes e pasta dentifríca para o meu pai. Quando a pasta acabava o meu pai usava sabão azul para lavar os dentes. Lavava os dentes todos os dias, graças á irmã mais velha. Até hoje ele agredece á irmã por aquele gesto visto que ele tem todos os dentes e a primeira cárie dele aparaceu já ele tinha os quarenta e tal anos (eu também nunca tive, portanto temos os dois bons genes). A irmã de cabelo ruivo era como um raio de sol num cenario de pobreza e uma mãe (minha avó) dura que lhe batia e que segundo a minha mãe gostava muito de beber aguardente. Só a conheci duas vezes tinha eu quatro e oito anos mas não me lembro muito dela.

Eu acho que o meu pai nunca gostou muito da aldeia dele. Escolheu a aldeia da minha avó materna para construir a sua «casa de imigrante.» Acho que ali encontrou uma paz que não tinha na aldeia dele visto que ele era uma espécie de «ovelha negra,» nas coscuvilhices e mexericos que são próprias das aldeias em geral. Mas é do terraço da casa dele na aldeia da minha mãe que ele vê à distância a aldeia onde ele nasceu e cresceu. Ao princípio (quando éramos pequenas) ainda íamos á festa popular da aldeia dele, a da Senhora do Livramento, aonde por um lado, ele podia mostrar a todos os que não acreditavam que ele faria algo com a vida dele, que de facto eles estavam errados. Depois de alguns anos parámos de ir à festa do Livramento. Acho que o meu pai deve ter chegado a uma altura e a uma idade em que já não devia de se sentir preso pelas inseguranças da sua juventude e já não sentia uma ligação á terra que o viu nascer e crescer. Não sei.

Tenho de perguntar ao meu pai o nome da sua querida irmã....

21/04/2010

Originally uploaded by Saloia

o quarto da minha avó materna na casa dela em Paredes do Vale

A alcunha da minha avó lá na aldeia era "Branquinha". Não tenho imagens dela quando era nova mas ela devia ter mesmo pele clara e olhos acinzentados. Agora quando ela fica comigo aqui em Sintra trocamos de cenario onde sou eu que a ajudo no banho porque com os seus já 98 anos está frágil e tenho medo que ela caia. Quando ajudo a secar as perninhas noto que elas são pequenas e brancas e de pele ainda macia sem rugas em contraste com os seus pés avermelhados e unhas com fungos. O banho acaba sempre com "Deus te abençoe minha querida, Deus te ajude."

Aminha mãe conta que as moças de Paredes do Vale fiavam e faziam as suas próprias meias que usavam no campo com as socas. Quanda vinha a primavera e a festa da Senhora do Vale (a freguesia mesmo lá no baixo da serra) iam com as pernas branquinhas e sem arranhões. Ao contrário delas, as moças do Vale já não as faziam as suas próprias meias e as pernas frescas das de lá de cima da serra que vinham dançar à festa eram a inveja para umas e a alegria para outros. Que orgulho elas sentiam!

Lembro-me que o irmão da minha avó, o Domingos ou Domenic como era conhecido em Jersey City, New Jersey, era também loiro e de olhos azuis. Quando visitava a irmã em Norwood, Massachusetts, faziamos grandes jantares de família. Ele era como um urso grande e gentíl. Lembro me que ele gostava de comer a parte do frango que tinha o «cu» (ponha toda a criançada a rir com a sua declaração à mesa) e gostava muito de apostar em corridas de cavalos. Tanto que o seu filho, também Domingos, quando obteve sucesso no trabalho comprou uns cavalos para este destino.

A filha do Domingos, a Mary, minha prima de 2ª conheceu a minha avó já mais tarde quando eu já era quase adolescente. Foi na primeira viagem dela à Portugal com o marido. Pediu ao guia da excursão em que viajava pelo Minho para desviar a carrinha até à aldeia onde nasceu o seu pai. Nós, a família estavamos todos lá a espera deles: avós, tios, pais, primos. Fizemos uma merenda minhota ao por do sol. Quando a Mary viu a minha avó apontou para os sinais vermelhos que parecem umas estrelinhas nas caras das duas e embora a minha avó não entender muito inglês apercebeu as palavras da minha prima. Apontou para a estrela na cara branquinha da minha avó e disse lhe "See, same thing, same thing." A minha avó respondeu -lhe com ar brincalhona...."same ting, same ting."

Em Julho vem a rolinha com a estrela na cara a Sintra mais uma vez. Com o ajuda de Deus.....

04/03/2010

mulher minhota

originally uploaded by Saloia.

No outro dia o nosso amigo Sr. Vestinho (alcunha de Sr. Silvestre), um senhor já de seus quase 55 anos comentou que " a Mary é uma mulher do Minho." Poucos dias antes deste comentario tinhamos estado a falar de uma outra senhora conhecida nossa, uma senhora semi bruta capaz de acartar um saco de batatas de 30 ou mais kilos, bonita mas não muito feminina. Ele também caracterizou ela como sendo uma mulher do Norte. Ora, quando ele me disse que eu era uma mulher do Minho eu ao mesmo tempo, gostei, porque orgulho me de ter sangue Minhoto mas também lembrei me daquilo que tinhamos falado da outra senhora conhecida que não era tão ladylike. Eu sou capaz de leventar 30 ou mais kilos de batatas. Todos os dias carrego pelo menos dois grandes sacos de legumes, kilos de farinha, e fruta nas compras que faço para a Saudade e o Sr. Vestinho já me observou varias vezes, nesta tarefa. Não sei se o Sr. Vestinho acha me "bonita mas não muito feminina." De facto, eu ainda não sei bem o que ele quer dizer quando ele diz que "a Mary é uma mulher do Minho."

Sei, que ele despertou uma coisa em mim ao dizer aquilo. Eu nasci nos Estados Unidos. Vivi lá até ter 29 anos no meio de uma comunidade portuguesa minhota que pretendia a todos os custos incutir nos filhos "tu nascestes aqui, mas também pertences aquela aldeia serrana, estás a ver, onde nós sachamos e semeamos e acartamos kilometros pela essas serras tojo e fento, para os animais que tambem ajudavam produzir da terra comida para sobreviver.... mas cantavamos no meio de tanta miséria....."

Não, eu não esqueço. Está lá dentro de mim e o Sr. Vestinho acordou em mim uma coisa tão boa, que com tanto trabalho e tanto barulho que me ronda há meses....estava adormecido. Talvez até estava adormecida dentro de mim a minha vida inteira até ao momento em que ele me disse isto. Incrivél! Por isto agredeço ele ter me dito aquilo...

No livro da Maria Lamas, a mulher do Minho (rural) nos anos 1950 e 60 era uma mulher que teve de lutar muito. Já agora podemos dizer que a mulher Portuguesa sempre lutou por tudo que ela queria. Mas a mulher do Minho fazia isto em condições geograficamente dificeis. O Minho tem muitas serras e havia uma isolação terrivél, assim como em Trás-os Montes ou as Beiras. Os homens do Minho emigraram em massa deixando as sozinhas para criar a família e cuidar dos campos e casas. As mulheres do Minho trabalhavam no negócio do contrabando, plantavam arvores para o plano nacional de florestação, carregavam fento, lenha, carvão, e crianças à cabeça. E queixavam se pouco. E isto era o normal. Era o dever delas. E pouco mais podiam ambicionar. Eu sei. A minha mãe é uma destas mulheres até aos 21 anos quando realizou o sonho de emigrar para os Estados Unidos da America. .

As vezes quando estou a falar com gente portuguesa, eles perguntam, "Não é de cá, pois não?" Não sou filha de pais Minhotos de Boston. "Ahh, pois nota se no sotaque." No outro dia perguntaram me " A Mary não tem frio? Anda aí com o peito destapado...deve ser do Minho, não?" Eu parei um segundo e sorri, respondi que sim e para mim pensei "Sim, sou uma mulher do Minho."

08/12/2008

a flor inesperada

artigo da revista Fugas

Na revista Fugas do jornal Público de Sabádo veio na secção "Natureza" um artigo sobre a flor lilás do que o meu pai falou na nossa caminhada à serra da aldeia em Outubro.

Açafrão-bravo nas serras de Paredes do Vale

28/11/2008

October memory. Walk with my father to the mountain to check the house water supply.
It is warm but fresh because it had rained the night before. We clear the pathway so that next year won´t be so difficult to walk to the mountain again. Chatting with him. He tells me that saffron comes from the stigma of a tiny purple flower that grows wild and that a woman from Hungary told him that. She was his neighbor´s friend and had visited and walked the mountain the week before. He never knew that about the purple flower in all this time. I am sitting and liking the midday sun.

26/10/2008

orvalho ou bálsamo

Gosto tanto destas fotografias que tirei ao vir me embora de Paredes numa manhã de Outubro . Uma manhã com orvalho nos campos. Esta é a erva que talvez gosto mais, a pendeirinha. Segundo diz a minha mãe era a erva predilecta do gado que pastava nos campos.

Adoro a cor com que ficaram as fotografias, sem eu precisar de editar. Acho eu. Gosto muito.

orvalho

(do dicionario Priberam)

do Lat. * roraliu ros, orvalhos. m.,.

vapor de água que se condensa em forma de pequenas gotas, devido a um arrefecimento lento do ar, e se deposita de manhã e à noite, sobre os corpos expostos ao ar livre; chuva muito miúda;.

rocio;

fig.,

aquilo que refrigera, consola;.

bálsamo

bom fim de semana*