27/11/2007

«...a capucha tem voz»

Esta imagem no sítio da Rosa é tão linda.

Ontem eu encontrei esta imagem de um menino, retirada de um livro do Padre Fontes, que também me fica na alma.

Imagem de:

Etnografia Transmontana: Crenças e Traduções de Barroso.

de António Lourenço Fontes 1979.

««E pastores há que dela se têm servido para afugentar os lobos dos rebanhos. «A capucha têm voz»-- pois gente que dela se tem aproveitado para tal efeito, assegura que não há lobo que vendo sacudir fortemente a capucha e ouvindo a sua voz, não fuja a sete pés.»»

Texto deste livro:

Artes e Tradições de Viseu, Direcção-Geral da Divulgação,1982. Terra Livre.

Eu não conhecia a capucha portuguesa até o Luís me «pôr» nas mãos aquele livro das Artes e Tradições de Viseu.

É claro que a capucha é algo do campo, algo serrano e isso tem muito haver comigo, com a minha maneira de ser e sentir a terra portuguesa. Mas quanto mais leio sobre ela mais vejo que a capucha era literalmente um conforto, um aconchego, um agasalho, uma segurança para quem a usava.

Com a capucha usada como rodilha, rodoiça ou mantula à cabeça, aguentavam-se os pesos que se transportavam pelas nossas serras. Como manta, sobre ela comiam depois dos trabalhos no campo.

À noite na cama ajudava aquecer contra o frio... E com a sua «voz» assustava os míticos lobos.

The photograph on Rosa's page is so beautiful.

The photograph I found yesterday of this little boy, taken from the book below also resides in my soul.

««Sheep herders used the capucha to frighten away wolves from their flocks. «the capucha has a voice»-- there are people who have claimed to use it for this purpose, and exclaim that there is no wolf alive that after hearing the snap of a capucha and its voice does not flee on seven feet.»»

I did not know of the portuguese capucha before Luís gave me the book Artes e Tradições de Viseu.

The capucha is a rural object, from the mountains, something with which I identify myself with and it is from this point of view I most experience this country´s soul from. But the more I read about the capucha the more I understand that it served literally as a comfort, security, a nd shelter for those who used it.

The capucha used as a rodilha, rodoiça ou mantula served as protection from the heavy loads women usually carried on their heads. It served also as a blanket on which people ate their lunch on when working in the fields.

And at night it served as a blanket to keep warm from the cold....and with its «voice» it scared away mythical wolves.

12 comentários:

disse...

Gosto de aprender "português" contigo:)

Uschi disse...

this is so beautiful Mary, clothes in their primary meaning as a second skin for soul and body and a shelter to both!

sara aires disse...

Lindo lindo post!!!!

:)***

saloia disse...

thank you

O L G A disse...

Beautiful picture! Interresting to read. And NO, I do not have a capucha! (see my blog) Is ist being used still today?

Thank you so much for the English translation, Mary.

carla alexandra vendinha disse...

estas imagens a mim fazem-me triste. a minha mãe foi professora e escolhia sempre aldeias remotas onde dar aulas. aprendi imenso, como é lógico, com os velhos e velhas desses lugares que me davam café com broa a comer e me ensinaram a escolher os cogumelos bons. MAs estas imagens lembram-me os meninos da minha mãe que levavam estas roupas para a escola, que faziam as canetas de pintar durar mais misturando-lhes aguardente. que se cobriam com cobertores daquela lã genuina que pica na pele e que dormiram pela primeira vez em lençois quando dormiram todos na nossa casa. é lindo mas lembra-me o portugal de ainda não ha muito tempo em que se vivia com tanto desconforto

saloia disse...

Sim, Carla, eu percebo o que dizes. Se eu tivesse fotografias dos meus pais quando eram pequenos seriam assim. Alias, tenho uma onde a minha mãe e tios (pequeninos) estão sentados à mesa na aldeia e que se vê os pés de todos, descalços. Ainda hoje a minha mãe fala pouquissimo dos tempos em que vivia em Portugal (está nos EUA) porque para ela foram anos de "miseria". O meu pai já admite que apesar da pobreza, recorda as coisas boas também.

Estas fotografias ficam na alma
porque são uma lembrança do que fomos, da condição humana e sinto nos olhares destas crianças aquilo que vi naquela preciosa e quase única fotografia que tenho dos meus naquela idade.

Obrigada por partilhares a tua história. Acho que também serve para nos relembrar de dar graças aos tempos em que vivemos, especialmente nesta altura do ano.


*
Mary

saloia disse...

Olga,

To answer whether it is still being used today...I am not sure. You can still purchase them though...

here.

Mary

Paralaxe disse...

Este Blog está listado no
Directório Paralaxe

d e a r disse...

You know... I am a quite bad many times, commenting and replying when I really should. But I DO read and appreaciate all your replies (like here) that you make, Mary!

love, Olga

Ana Albuquerque Barata disse...

Encontrei o seu blog por acaso. e logo vi uma capucha igual à minha, que antes foi da minha Mãe. E a minha Mãe tem uma dela de tamanho grande.
Sim, as capuchas ainda se usam. No Caramulo (na serra e na vila). Quando a minha Mãe, grávida de mim, há 36 anos, se mudou para a cidade, trouxe as dela.
E quando regressa à serra, usa a da Mãe dela, que já se foi.
Na serra usava-as para se proteger do frio, da neve e da chuva. Agora têm o mesmo fim, acrescido do de mimar a neta mais velha, minha filha, no mimar. É que a minha Mãe adormecia a minha filha mais velha embrulhando-a na sua capucha. Agora, e desde que a mais nova nasceu, e ela repete com ela os mesmos gestos que praticava com a mais velha, esta pede-lhe: "'Vó, dás-me colo na tua manta?" E a Avó dá.

micheliny verunschk disse...

e cada vez mais aprendo com você sobre os costumes de Portugal.

beijinhos brasileiros!