19/08/2008

mãe

A minha mãe passou uns dias comigo em Sintra e eu com ela este fim de semana na terra dela. Não costuma falar da vida dela quando era pequena mas estes dias revelou algumas coisas, nada significante, mas saboreio todas as palavras e ideias das imagens de uma menina que teve de crescer muito depressa.

Algumas das coisas que ela conta verifico ao ler As Mulheres do Meu País da Maria Lamas. A Maria Lamas viajou pelas terras de Soajo, Castro Laboreiro, Lindoso. Terras do Minho profundo que conheço bem. Alguns exemplos nas histórias da minha mãe são as mulheres que trabalhavam no negócio do contrabando entre Portugal e Espanha (muito comum naqueles tempos no Minho) e que muitos dos homens do Soajo, terra do meu avô, foram para Lisboa trabalhar como padeiros.

Ela conta:

Ao jantar (eu fiz bacalhau)

... gostava tanto de açorda de bacalhau com tomate. O teu avô e tio Armindo (eles eram padeiros em Lisboa e a minha mãe, avó, bisavó ficaram na terra ) mandavam trigo (carcaças) de Lisboa pelo correio. Chegava a Paredes duro e então faziamos açorda.....era tão bom.

Mãe, conhecestes a tua avó, mãe do teu pai?

Sim...chamava-se Rosa Branca...viúva com trés filhos e fazia contrabando. A sério? Sim, uma mulher bonita, alta, tinha 3 filhos para criar. Fazia-me saias e blusas...também costurava.

A minha mãe atravessava estes montes para a ver porque a Rosa Branca vivia em Vilar de Suente, Soajo.

Tinhas bonecas?

Sim...fazia-as de trapos. A cabeça era uma pedra e os olhos e a boca eram feitas com carvão (ou o que restava das brasas da lareira).

A minha mãe escrevia cartas para os analfabetos da aldeia. Tinha apenas nove anos quando comecou a escrever. Uma das senhoras para quem ela escrevia era a Ti Conceiçao. Eu ainda me lembro da Ti Conçeição das nossas férias de verão na aldeia. Ela já morreu, mas para eu chegar ao lugar de cima tinha que passar sempre pela casa dela. Lembro-me de ter medo dela....talvez por ter um bigode e barba e por falar muito bruscamente e ser rabugenta.

Ela conta que a Ti Conçeição ralhava muito com o Ti Guilherme quando ele a visitava em Paredes. Então um dia a minha mãe, uma menina pequenina, foi chamada por ela para escrever uma carta para ele.

Então para começar a tal carta ela diz:

Escreve assim.

Meu querido marido.....TU NÂO ÉS!

Marido................. TU NÂO ÉS!

Vai assim!....

GUILHERME!

A minha mãe ficou sem saber o que fazer nem dizer.

*

12 comentários:

Sandra Pereira disse...

Adorei de paixão ler isto.
SP

amendoaamarga disse...

Eu também desde pequena que adoro escutar as histórias que os membros mais velhos da família têm para contar. São vidas de muito sofrimento e meninices perdidas na labuta do campo e a servir, mas também de um espírito de fraternidade entre si difícil de encontrar nos nossos dias. A minha tia avó está à beira de fazer 95 anos e com uma frescura de memória e de visualização dos tempos idos impressionante.É o único modo que tenho de elaborar uma genealogia da família.
É sempre um prazer muito grande visitar o teu blog.
Ines

saloia disse...

obrigada às duas*
Mary

Tereclopes disse...

Realmente está uma ternura este teu post, adorei lê-lo. Como sempre tudo muito especial com o teu toque pessoal. Fez-me lembrar as histórias que ouvi em criança na aldeia da minha mãe nas nossas férias lá passadas. Acreditas, que o meu enxoval foi quase todo comprado a uma senhora que na altura também fazia contabando?
Continua Mary a encantar-nos com as tuas narrativas.
Beijinhos

maman xuxudidi disse...

Mary, que bonita a história da tua familia. Por vezes, mergulho no livro "Outros Tempos" de António Mota com ilustrações de Marta Lemos. São memórias contadas pelos mais velhos... acho que vais gostar.
Um beijo,

saloia disse...

:*
Teresa e Diane.
Mary

sara aires disse...

O melhor post de sempre Mary! Agora sabemos de onde vem esse "dedo de bonequeira"!

isabel disse...

Uma história assim ouvida, vinda do nada, assim contada, vinda do fundo do coração, faz-nos vivê-la de novo, como se fosse nova.
Um beijinho Mary.

saloia disse...

obrigada Isabel
a minha mãe, Albertina, conta e eu oiço com muito amor e o bom é que as histórias são contadas com carinho por ela e com humor também e eu só me aptece lhe dar muitos abraços quando ela me conta estas coisas.

:)
Mary Soares Pereira

Flora Maria disse...

Adorei ler suas histórias, Mary !
Lembrei da açorda de bacalhau que minha mãe fazia e nós adorávamos.
Ela também fazia um doce que chamava de Formigos,se não estou enganada, e que era pão molhado numa mistura de água açucarada e com banha (?) - já não lembro mais pois lá se vão mais de 40 anos ! Punha folhas de hortelã e ia ao forno para ficar tostado. V. conhece ?Eu gostaria de saber mais sobre ele. Minha mãe era da região de Aveiro (Pinheiro da Bemposta, Branca)
Continue contando essas adoráveis histórias familiares, tão agradáveis de se ler.
Um abraço
Flora Maria

KI disse...

Delicioso relato. E "tu não és", a minha filha pequenina qd vai para a cama é q manda a Minnie de peluche para o chão e diz "ito não é" e só fica a almofadinha e os dois cães fofinhos (de peluche claro :) que sempre q vão ao banho dão direito a uma birra com a mãe.

Ontem lá ia levando de novo com a Minnie no toutiço, isto pq eu acho a boneca tão linda q tenho pena q ela n goste dela e lha dei e ela lançou-a furiosa dizendo" ai ai mãe! ito n é!!" e eu saí de fininho antes que me atiçasse os cães... :)

Beijos.

Maria disse...

Que bonito Mary. Que idade tem a sua mãe? Por favor conte-nos mais histórias.

Lembro-me de ler há muito tempo “Conversas com Sarah Affonso”. As conversas foram gravadas pela Maria José de Almada Negreiros, sua nora, com um pequeno gravador escondido debaixo da camilha. Nas primeiras o gravador estava tão bem escondido que não se conseguia ouvir nada. Um livro interessante.