27/04/2010

uma das vistas da casa do meu pai em Paredes do Vale

Não me lembro do nome da minha tia, a irmã do meu pai. Estava a falar com o Luís sobre ela mas não me lembrava do nome. Tenho tentado nos últimos dias imaginar falar com ela a ver se me lembro mas não vem á memória. Lembro me que ela era uma mulher bonita, voluptuosa, e alegre. Era uma senhora da cidade com um coiffeur grande e á Lisboa, assim como os ocúlos de moda também de tamanho XL. Em retrospectiva, ela nunca perdeu a essência dela de menina do campo com a sua à vontade na sua maneira de ser.

No fim de cada férias do verão na aldeia no Minho e sempre antes do regresso para os Estados Unidos visitávamos a minha tia na pequena mercearia dela numa rua junto ao Palácio da Ajuda. A minha tia morreu há muitos anos e morreu muito nova. Depois, as visitas à Ajuda lentamente pararam de ser. Lembro-me bem dos nomes dos filhos, meus primos, o Rui e a Paula, mas não o dela.

O meu pai conta que a minha tia foi para Lisboa muito nova para trabalhar como empregada domestica. Quando ela regressava a Sampriz, Ponte da Barca, trazia sempre uma escova de dentes e pasta dentifríca para o meu pai. Quando a pasta acabava o meu pai usava sabão azul para lavar os dentes. Lavava os dentes todos os dias, graças á irmã mais velha. Até hoje ele agredece á irmã por aquele gesto visto que ele tem todos os dentes e a primeira cárie dele aparaceu já ele tinha os quarenta e tal anos (eu também nunca tive, portanto temos os dois bons genes). A irmã de cabelo ruivo era como um raio de sol num cenario de pobreza e uma mãe (minha avó) dura que lhe batia e que segundo a minha mãe gostava muito de beber aguardente. Só a conheci duas vezes tinha eu quatro e oito anos mas não me lembro muito dela.

Eu acho que o meu pai nunca gostou muito da aldeia dele. Escolheu a aldeia da minha avó materna para construir a sua «casa de imigrante.» Acho que ali encontrou uma paz que não tinha na aldeia dele visto que ele era uma espécie de «ovelha negra,» nas coscuvilhices e mexericos que são próprias das aldeias em geral. Mas é do terraço da casa dele na aldeia da minha mãe que ele vê à distância a aldeia onde ele nasceu e cresceu. Ao princípio (quando éramos pequenas) ainda íamos á festa popular da aldeia dele, a da Senhora do Livramento, aonde por um lado, ele podia mostrar a todos os que não acreditavam que ele faria algo com a vida dele, que de facto eles estavam errados. Depois de alguns anos parámos de ir à festa do Livramento. Acho que o meu pai deve ter chegado a uma altura e a uma idade em que já não devia de se sentir preso pelas inseguranças da sua juventude e já não sentia uma ligação á terra que o viu nascer e crescer. Não sei.

Tenho de perguntar ao meu pai o nome da sua querida irmã....

21/04/2010

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o quarto da minha avó materna na casa dela em Paredes do Vale

A alcunha da minha avó lá na aldeia era "Branquinha". Não tenho imagens dela quando era nova mas ela devia ter mesmo pele clara e olhos acinzentados. Agora quando ela fica comigo aqui em Sintra trocamos de cenario onde sou eu que a ajudo no banho porque com os seus já 98 anos está frágil e tenho medo que ela caia. Quando ajudo a secar as perninhas noto que elas são pequenas e brancas e de pele ainda macia sem rugas em contraste com os seus pés avermelhados e unhas com fungos. O banho acaba sempre com "Deus te abençoe minha querida, Deus te ajude."

Aminha mãe conta que as moças de Paredes do Vale fiavam e faziam as suas próprias meias que usavam no campo com as socas. Quanda vinha a primavera e a festa da Senhora do Vale (a freguesia mesmo lá no baixo da serra) iam com as pernas branquinhas e sem arranhões. Ao contrário delas, as moças do Vale já não as faziam as suas próprias meias e as pernas frescas das de lá de cima da serra que vinham dançar à festa eram a inveja para umas e a alegria para outros. Que orgulho elas sentiam!

Lembro-me que o irmão da minha avó, o Domingos ou Domenic como era conhecido em Jersey City, New Jersey, era também loiro e de olhos azuis. Quando visitava a irmã em Norwood, Massachusetts, faziamos grandes jantares de família. Ele era como um urso grande e gentíl. Lembro me que ele gostava de comer a parte do frango que tinha o «cu» (ponha toda a criançada a rir com a sua declaração à mesa) e gostava muito de apostar em corridas de cavalos. Tanto que o seu filho, também Domingos, quando obteve sucesso no trabalho comprou uns cavalos para este destino.

A filha do Domingos, a Mary, minha prima de 2ª conheceu a minha avó já mais tarde quando eu já era quase adolescente. Foi na primeira viagem dela à Portugal com o marido. Pediu ao guia da excursão em que viajava pelo Minho para desviar a carrinha até à aldeia onde nasceu o seu pai. Nós, a família estavamos todos lá a espera deles: avós, tios, pais, primos. Fizemos uma merenda minhota ao por do sol. Quando a Mary viu a minha avó apontou para os sinais vermelhos que parecem umas estrelinhas nas caras das duas e embora a minha avó não entender muito inglês apercebeu as palavras da minha prima. Apontou para a estrela na cara branquinha da minha avó e disse lhe "See, same thing, same thing." A minha avó respondeu -lhe com ar brincalhona...."same ting, same ting."

Em Julho vem a rolinha com a estrela na cara a Sintra mais uma vez. Com o ajuda de Deus.....

12/04/2010

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eu na casa da minha avó materna

A minha avó usava um lenço de mão para guardar o seu dinheiro. Fazia dele um tipo de trouxa atado numa bolinha . Eu lembro-me que ela tinha vários lenços com dinheiro, escondidos nos roupeiros ou nas gavetas do quarto dela. Quando me queria dar dinheiro para as minhas despesas lá ia a minha 'rolinha' buscar as suas bolinhas. A minha avó tinha uma mala de mão, mas acho que só começou a usar uma regularmente quando emigrou para os Estados Unidos, já ela tinha os seus cinquenta e tal anos. Imagino que na sua vida de campo, na aldeia lá longe na serra pouco precisava de uma mala ou carteira. A vida dela consistia em cuidar dos animais, dos seus filhos e da sua mãe . A minha mãe conta que a minha avó não gostava de ir às feiras ou às compras no mercado da vila (Arcos de Valdevez). Em vez dela ia a minha mãe, ainda pequenina, com a irmã da minha avó. Essa minha tia avó gostava de dinheiro e de ir às compras!!

Hoje fui às compras para o café e não levei carteira. Como estava com pressa peguei numa nota de cinquenta, na chave do carro e nos sacos recicláveis para acartar as minhas compras. Quando cheguei ao mercado não tinha aonde guardar a nota e chaves. Não tinha lenço de mão, mas tinha um saco plástico pequeno que de repente serviu como uma espécie de trouxa aonde guardei a nota e as chaves e depois a factura das compras e o troco. Quando voltava de carro para o café de repente olhei para o saquinho e lembrei me das trouxinhas da minha avó.

Também não gosto muito de ir às compras, minha rolinha.

30/03/2010

andorinha

Gosto de bancos e mesas de trabalho. Esta tabua foi me oferecido por um artesão de galos de Barcelos que faz também andorinhas das mais toscas. Tem dois lados e vou o por ao lado deste. A minha colecção cresce e inspira....

22/03/2010

há uma certa hora..

...em que o sol bate nesta mesa, e por acaso está lá o piu em cima do queima velas do Bordalo Pinheiro. É bom e bonito.

E muito muito obrigada pelos comentarios do meu post sobre saudade :).

15/03/2010

i miss you ...eu sei, eu sei, não é saudade...

Hoje comecei a chorar no meio do trabalho. Estava irritada, nervosa, stressada. Era o cançaso e agora começo a culpar a idade, mas o mais provavél foi o cansaço. Estou velha, gosto de dizer. A minha mãe gosta de dizer. "Quando tinha a tua idade, trabalhava em dois trabalhos, depois acordava às duas da manhã para fazer o jantar para o teu pai que trabalhava as noites ....até parecia que voava, nem no chão ponha os pés...e tinhavos a vocês as trés..." (com um ano de diferença entre eu e as minhas irmãs.) Penso nela tantas vezes. Agora falo menos com ela ao telefone para Boston. Ou porque estou na azafama do trabalho ou passa e tenciono falar para ela o dia a seguir. Os dias fogem a correr, não os consigo apanhar jamais.

Quando estou cansada sou torcida e tenho mau feitio. Talvez até sou assim quando não estou cansada...? Sou uma perfecionista cheia de erratas e sou desorganizada. Sou má gerente e só o meu trabalho serve de exemplo para os outros. Exigo muito, mas ninguem é perfeito. Hoje, é segunda feira. Acho que posso culpar as segundas feiras porque os fins de semana são muito exigentes no nosso café. Deve ser a ressaca.

I miss my family, e noto que procuro os sinais de saudade. De manhã perto do Saudade oiço as rolinhas a cantar e vejo as a voar por ali até aqui. Antes, quando a minha avó tomava conta de nós em casa dela, e para nós comermos, dizia "come minha rolinha, come". Se tivesse de dar um nome a um restaurante meu seria este, Come Minha Rolinha, Come. E hoje de carro passamos o lugar onde se encontra uma padaria que se chama "O Bicho". Comecei a dizer a palavra como diria a minha tia Rosalina, com quem eu nunca teve uma relação muito próxima. Ela era de Boimo, Cabana Maior e pronunciava por exemplo a palavra bicho não como beeshoo, mas, beetcho ou tchuva, ou melhor, tchuba. Tenho saudades dela, I miss her.

Lá estão eles em Boston e lá vivem a sua vida. Eu cá, a minha. Neste dia de segunda feira em que arrasto os meus pés queria praticar o meu mau feitio com eles A minha mãe não teria simpatia pelo meu cansaço, a minha avó mediria os meus pulsos com a mão dela e achava me magra demais (quem me conhece sabe que sou rechonchuda) e a minha tia falaria com aquela voz aguda...e falaria....e falaria de tudo e todos...

04/03/2010

mulher minhota

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No outro dia o nosso amigo Sr. Vestinho (alcunha de Sr. Silvestre), um senhor já de seus quase 55 anos comentou que " a Mary é uma mulher do Minho." Poucos dias antes deste comentario tinhamos estado a falar de uma outra senhora conhecida nossa, uma senhora semi bruta capaz de acartar um saco de batatas de 30 ou mais kilos, bonita mas não muito feminina. Ele também caracterizou ela como sendo uma mulher do Norte. Ora, quando ele me disse que eu era uma mulher do Minho eu ao mesmo tempo, gostei, porque orgulho me de ter sangue Minhoto mas também lembrei me daquilo que tinhamos falado da outra senhora conhecida que não era tão ladylike. Eu sou capaz de leventar 30 ou mais kilos de batatas. Todos os dias carrego pelo menos dois grandes sacos de legumes, kilos de farinha, e fruta nas compras que faço para a Saudade e o Sr. Vestinho já me observou varias vezes, nesta tarefa. Não sei se o Sr. Vestinho acha me "bonita mas não muito feminina." De facto, eu ainda não sei bem o que ele quer dizer quando ele diz que "a Mary é uma mulher do Minho."

Sei, que ele despertou uma coisa em mim ao dizer aquilo. Eu nasci nos Estados Unidos. Vivi lá até ter 29 anos no meio de uma comunidade portuguesa minhota que pretendia a todos os custos incutir nos filhos "tu nascestes aqui, mas também pertences aquela aldeia serrana, estás a ver, onde nós sachamos e semeamos e acartamos kilometros pela essas serras tojo e fento, para os animais que tambem ajudavam produzir da terra comida para sobreviver.... mas cantavamos no meio de tanta miséria....."

Não, eu não esqueço. Está lá dentro de mim e o Sr. Vestinho acordou em mim uma coisa tão boa, que com tanto trabalho e tanto barulho que me ronda há meses....estava adormecido. Talvez até estava adormecida dentro de mim a minha vida inteira até ao momento em que ele me disse isto. Incrivél! Por isto agredeço ele ter me dito aquilo...

No livro da Maria Lamas, a mulher do Minho (rural) nos anos 1950 e 60 era uma mulher que teve de lutar muito. Já agora podemos dizer que a mulher Portuguesa sempre lutou por tudo que ela queria. Mas a mulher do Minho fazia isto em condições geograficamente dificeis. O Minho tem muitas serras e havia uma isolação terrivél, assim como em Trás-os Montes ou as Beiras. Os homens do Minho emigraram em massa deixando as sozinhas para criar a família e cuidar dos campos e casas. As mulheres do Minho trabalhavam no negócio do contrabando, plantavam arvores para o plano nacional de florestação, carregavam fento, lenha, carvão, e crianças à cabeça. E queixavam se pouco. E isto era o normal. Era o dever delas. E pouco mais podiam ambicionar. Eu sei. A minha mãe é uma destas mulheres até aos 21 anos quando realizou o sonho de emigrar para os Estados Unidos da America. .

As vezes quando estou a falar com gente portuguesa, eles perguntam, "Não é de cá, pois não?" Não sou filha de pais Minhotos de Boston. "Ahh, pois nota se no sotaque." No outro dia perguntaram me " A Mary não tem frio? Anda aí com o peito destapado...deve ser do Minho, não?" Eu parei um segundo e sorri, respondi que sim e para mim pensei "Sim, sou uma mulher do Minho."